Relacionamento tóxico: como identifica-lo e sair dele.


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Todo mundo sonha em viver um grande amor, encontrar uma paixão, a metade da laranja, a
tampa da panela… e em nome desta desejo muitas pessoas se deixam envolver em
relacionamentos tóxicos ou abusivos.
O mais surpreendente é que as pessoas não percebem isso acontecer, tanto a parte que
‘abusa’, quanto a parte que é ‘abusada’. As pessoas se perdem nas fronteiras do
relacionamento e quando percebem, já se machucaram demais.
É muito comum nos empatizarmos pela ‘vítima’ e condenarmos o ‘abusador’, contudo numa
perspectiva psicológica, a dinâmica da relação não tão simples assim, há condições
emocionais, contextos, traumas que colorem os 50 tons de cinza desta relação.
Não me entendam mal, é fato que a violência doméstica é um câncer para a sociedade, que as
mulheres estão numa situação de vulnerabilidade, que são humilhadas, violentadas e se
submetem a esta situação. No contexto da pandemia então… essa lamentável realidade é
global (https://www.onumulheres.org.br/noticias/violencia-contra-as-mulheres-e-meninas-e-
pandemia-invisivel-afirma-diretora-executiva-da-onu-mulheres/). Mas ninguém nasceu
abusador e abusado, meu objetivo aqui é trazer clareza numa perspectiva psicológica dessa
conta complicada que é a relação tóxica.

 

Onde nasce um relacionamento abusivo

Tudo começa na autoestima. Eu sei, pode parecer meio clichê falar de amor-próprio mas estou
longe de fazer um textão de autoajuda. Quando nascemos, aprendemos a desenvolver nossas
primeiras relações da infância com nossos pais, familiares ou pessoas próximas a nós. Nós
aprendemos como isso funciona e como temos nossas necessidades básicas atendidas: afeto e
atenção.

Somos seres relacionais, necessitamos do olhar de validação do outro, da troca para nos
sentirmos amados e aceitos isso acontece de maneira consciente ou inconsciente o tempo
inteiro.

Neste relação desenvolvemos nosso autoconceito, a maneira como nos vemos e
desenvolvemos um modelo de vínculo, esse modelo vai nortear as nossas relações em todas as
áreas da vida: com os amigos, com a família, no trabalho e é claro…. no amor!

 

Todo mundo quer um final feliz….
É fato que todo mundo quer encontrar o seu grande amor, a sua grande paixão, mas o que as
pessoas não conseguem entender é que este primeiro grande amor tem que ser você, caso
contrário, não há referência, não há repertório para você se relacionar de maneira saudável
com o outro, já que toda a relação é baseada na troca.

 

Saber o que você pode receber, qual é o seu valor, o que você gosta e merecer ter. Quando
você sabe disso pode solicitar ao outro, de uma forma saudável, o que você gostaria e precisa.
Se a contraparte não compreende, ou está em algum nível mais disfuncional, fica fácil colocar
limites, se desvencilhar ou mesmo romper com este relacionamento. E é nesta fronteira que as
coisas se complicam.

 

Miopia emocional

Acontece que as pessoas estão tão cegas pela carência e pelas faltas, que acabam criando uma
expectativa de conseguir no outro aquilo que elas gostariam de ter. Nas projeções emocionais
não percebem que estão numa relação tóxica, até porque nem sempre elas são evidentes,
muitas vem disfarçadas de amor e atenção.
Mas o que muita gente esquece é que esta relação tem um vetor, ela parte de um lugar, esse
lugar sou EU. Do meu autoconceito, da maneira como eu me vejo, como eu me percebo. E o
tom desta autopercepção é que vai delinear minha visão sobre as minhas relações ,como eu
me vejo, como eu me coloco, como eu me percebo; e este modelo será reproduzido para
todos os vínculos que eu desenvolvo, saudáveis ou não.

 

A equação psicológica do abusador x abusado

O abusador, desenvolveu no cerne de sua estrutura psicológica uma personalidade permeada
por insegurança extrema e por uma falta emocional. A falta de carinho, afeto, atenção, de
olhar, de toque, de fala… esta pessoa recebeu isso de uma forma muito paradoxal, do tipo “Eu
te amo, mas eu te bato e grito com você”. Ou ainda “Eu te desqualifico, digo que você não vale
nada, que só faz coisa errada… mas eu continuo aqui por você”. A criança, estabelece um
vínculo inseguro com as figuras primárias de sua relação e começa a achar que isso É amor.
Na tentativa de regular-se internamente, tenta minimizar os extremos que viveu sua infância
inteira, busca o mínimo de coerência num comportamento de controle excessivo. Ela
desenvolve mecanismos para tentar controlar a vida e as situações que estão à sua volta na
ilusão de se preservar do sofrimento. Isso as vezes, reflete em traços de uma personalidade
um tanto ‘perversa’, não é que exista prazer no sofrimento alheio, o prazer mora na sensação
de controle. Pois quando ela tem o controle, ela tem a falsa sensação de que não vai mais
sofrer, não será atacada.

Em contrapartida, a pessoa que se sujeita ao abuso, viveu uma realidade de carência iminente.
Parece que lhe falta algo, uma carência primária que nasceu das percepções de suas
experiências de infância. Assim, ela que precisa de alguém que repare nela, que a perceba,
reconheça aquilo que faltou lá trás, e mais, alguém que daria para ela o que ela gostaria de ter
recebido, mas não teve. Em nome desta carência a pessoa perde a noção do limite.

 

As 6 fases do relacionamento abusivo – do ciúme à
violência

 

Uma relação tóxica pode rapidamente desencadear violência física, a velocidade com que isso
vai acontecer dependerá de vários componentes emocionais das partes envolvidas, mas no
geral, ela acontece em 5 etapas.

1) O disfarce perfeito
O primeiro degrau é o que chamamos de efeito camaleão ou mimetismo. Neste etapa, a
pessoa é capaz de ler, identificar e decifrar as necessidades outro. Com base nisso é ela se
adapta, se molda, se transforma para caber na forma daquilo que falta. Ela se empenha para
se transformar na alma gêmea do outro, demonstra ser alguém agradável, educada e que te
captura. Quando ela percebe que te cativou, começam os sinais de ciúmes leves, que podem
ser vistos como amor, como cuidado, como preocupação, atenção, carinho: “Não saia com
essa roupa, vão mexer com você”, ou ainda, “não se comporte assim, as pessoas vão te julgar”.

2) É normal…
No geral, esse comportamento sutil passa desapercebido, e dá início a segunda fase na qual a
parte abusada passa por um tipo de adestramento, há uma recompensa cada vez que a ordem
é obedecida e reforçada por pensamentos do tipo “nossa, ela realmente me vê”, “puxa ela
realmente se preocupa comigo” e cada vez mais os limites vão sendo ultrapassados e,
eventualmente, isso começa a incomodar o abusado.

3) A Culpa é minha
Então começa a terceira fase que é a culpabilidade, frases do tipo “eu faço isso por que você
não segue o que eu te falo”, “eu tenho que ser assim, mais ‘ríspido’, firme, ‘enfático’, porque
você não me escuta”. O abusado começa a se distanciar de si, a deixar de pôr os limites, se
violentando, vai se perdendo de sim mesmo, por migalhas de amor e atenção que era o que
você queria desde o início.

4) Vocês não entendem
Nos altos e baixos da relação, quando o abusador começa a perceber que a outra parte
começa a querer se incomodar, vem a quarta etapa que a do distanciamento. A parte abusada
busca um contraponto de suas ações e pergunta para pessoas de sua confiança, “mas eu sou
assim mesmo”, “eu ajo desta forma”. E a cada validação, o abusador começa a isolar o outro
de sua família, de seus amigos e de seus colegas de trabalho; no objetivo de minar a sua
capacidade de acreditar na sua rede de apoio. Sim, todas as pessoas que estão de fora,
percebem a situação e querem ajudar são questionadas, desacreditadas e neutralizadas.

5) É assim mesmo, vai ficar tudo bem
Por fim, chega a fase final de triangulação. Depois que a parte abusada foi dominada é
submetida a uma dinâmica de oscilação emocional de amor e desprezo. Há um aumento do
estresse / explosão, seguidos de fases de reconciliação / calmaria. Nestes momentos, não é
incomum o abusador alimentar as inseguranças da outra pessoa, vai provocar situações de
ciúmes, dar a entender que tem um ex relacionamento que o procurou, que foi assediado,
tudo para te desvalorizar e te fazer sentir insegurança. A meta mensagem é “ele tem valor, é
desejado e procurado”. Na relação abusiva, você começa a duvidar de forma séria e profunda
de sua percepção da vida. Seus amigos falam para você sair fora, pois você não era assim, não
podem mais agir, vestir, falar ou ser como costumava… e a pessoa não consegue acreditar.

 

Pausa no texto para uma informação importante: Gente atenção!!!
Numa relação saudável acontece exatamente o contrário, você não
provoca ciúme no outro, você provoca segurança, vínculo, atenção
aos desejos e percepções. Que respeita os limites…

 

6) Ninguém vai me querer, melhor ficar assim
O último degrau desta escada entra na base da chantagem, chantagem emocional, todas elas
com argumentos depreciativos do tipo: “se você me largar ninguém vai te querer”, “você tá
muito feita, ninguém vai querer alguém igual a você… só eu pra te aguentar”. Perceba a
oscilação, em pouco tempo você passou de ‘alma gêmea’ para algo sem valor que ninguém
pode gostar. O abusador se coloca como aquele ser benevolente que faz o favor de aguentar
sua insegurança e seu xororô.

E quando a parte abusada não aguenta este tipo de situação começa a violência física. Um dia
te seguram mais forte no braço, outro dia você recebe um empurrão, depois vem o primeiro
tapa… e por aí vai. De acordo com o perito e mediador judicial do tribunal de justiça do rio de janeiro Luis
Wigderowitz (https://luizwigderowitz.site.psc.br/#noticias-atualizadas): “ Não há uma única
história que não tenha tido um longo percurso desta escada. Que vai aumentando
gradativamente até chegar à violência extremada. Os dois passam do limite! O abusador
realmente acredita que é o amor. Costumo dizer que não tem culpa, tem participação, tem
gente que sai de um emenda no outro pois não entendeu qual é sua responsabilidade nisso”.

 

Tipos de violência

Quando ouvimos a palavra “violência”, automaticamente pensamos em agressões físicas,
hematomas e machucados. Mas existem vários tipos de violência que não identificamos no dia
a dia e por isso elas são relativizadas ou ignoradas. A ONU Mulheres em parceria com a GNT
fez um vídeo incrível numa campanha de combate à violência contra a mulher que explica isso
melhor (https://youtu.be/fzKsdrxhUQI).

Violência psicológica: quando você sofre humilhação, insultos, isolamento perseguição ou
ameaças.

Violência moral: quando você sofre calúnia, injúria ou difamação de qualquer tipo.

Violência patrimonial: quando seu dinheiro é controlado, não há permissão para compras,
quando seus pertences são destruídos, quando os bens e propriedades são ocultados e
quando você é proibida de trabalhar.

Violência física: quando você sofre qualquer tipo de agressão corporal como empurrões,
chutes, imobilizações ou surras.

Violência sexual: quando você sofre pressão para ter relações, é obrigada a fazer práticas que
não gosta, há recusa ao uso do preservativo ou qualquer outro método contraceptivo.

Sá, me ajuda! Como saio disso?

Eu poderia começar por vários lugares… mas a primeira coisa que você precisa saber é que há
luz no fim do túnel e que você pode mais. Se desvencilhar de um relacionamento abusivo,
apesar de parecer a parte mais difícil, é só o começo! E para não cair nesta cilada novamente é
muito importante que você entenda qual foi o ônibus que você pegou pra chegar neste ponto
da sua vida, ou seja, qual é a sua responsabilidade (sim, você TAMBÉM é responsável) por sair
dessa e nunca mais permitir que isto te aconteça novamente.

Mas vamos por partes, para se desvencilhar disso você precisa:

1) Admita e reconheça os sinais de que você está sim numa relação é tóxica. …

2) Seja firme, decida de fato que você merece mais passar por este sofrimento e coloque
um fim neste dinâmica tóxica de relação

3) Não se isole – acione sua rede de apoio (amigos, familiares, pessoas que te querem
bem podem te ajudar, acredite, ela existe!)

4) Persista: valorize quem você é, faça planos, resgate sua autoestima e não fuja da
armadilha de relativizar o dano que você sofreu.

5) Busque ajuda profissional: para se fortalecer, entender o que lhe falta que fez você se
submeter a uma relação abusiva, é fundamental se conhecer melhor para fazer
escolhas mais condizentes com aquilo que você merece de verdade.

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